terça-feira, 7 de janeiro de 2025

Monteiro Lobato nu e cru, na banheira - por Fernando Jorge

 


Fernando Jorge (Petrópolis, 1928) é uma figura multifacetada da cultura brasileira, cuja trajetória como jornalista, escritor, historiador, biógrafo, crítico literário, dicionarista e enciclopedista deixou uma marca indelével no cenário intelectual do país. Autor de obras biográficas e históricas aclamadas, ele construiu um legado que vai além das páginas de seus livros. Em 1962, foi laureado com o Prêmio Jabuti na categoria Biografia pelo livro O Aleijadinho: Sua Vida, Sua Obra, Seu Gênio – a obra que, curiosamente, esteve no centro de seu diálogo com Monteiro Lobato. Com coragem e perspicácia, Fernando moldou a história cultural do Brasil, consolidando-se como um intelectual que nunca se esquivou de desafios ou debates.

Sua contribuição ao blog do Observatório Lobato surgiu de forma especial. Fernando Jorge é autor da biografia de Paulo Setúbal, grande amigo de Monteiro Lobato, uma obra indispensável para compreender a intelectualidade paulistana. Ao receber um pedido para escrever mais sobre Lobato, o autor gentilmente enviou um artigo em que narra seu primeiro encontro com o escritor. Nesse relato, ele descreve como o encontro aconteceu, os temas que discutiram e suas impressões pessoais sobre Lobato. O texto, originalmente publicado no site dos Jornais de Bairro Associados (JBA), onde Fernando é colunista, foi escrito em período anterior a 2017 e oferece uma perspectiva única sobre um dos grandes ícones da literatura brasileira.

Deixamos aqui nosso mais sincero agradecimento a Fernando Jorge por sua generosidade em compartilhar o seu artigo. Seria uma honra poder contar com sua presença em nossas discussões futuras, enriquecendo ainda mais os diálogos sobre Monteiro Lobato e a cultura brasileira.


Monteiro Lobato nu e cru, na banheira

Fernando Jorge


Conheci Monteiro Lobato em 1947, na cidade de São Paulo, quando ele estava morando num apartamento na rua Barão de Itapetininga, que lhe havia sido cedido por Caio Prado Júnior, fundador, com Lobato, da Editora Brasiliense, cuja livraria se localizava no térreo do edifício da nova residência do prosador das Ideias de Jeca Tatu. Quem me apresentou a Lobato foi o seu amigo Artur Neves, nascido em Ribeirão Bonito, fundador da União Brasileira de Escritores de São Paulo e filho do poeta simbolista Aurélio Neves.

Impressionou-me o aspecto do criador do Sítio do Picapau-Amarelo, o seu corpo magro, frágil, o seu rosto pálido, um pouco esverdeado, no qual as sobrancelhas fortes, grossas, unidas, formavam contraste com a cor esmaecida de sua fisionomia.

Ele foi cordial, sorriu, cumprimentou-me, e o Artur Neves deu a seguinte informação:

- Lobato, este jovem escritor pretende ser o autor de um livro sobre o Aleijadinho.

Sentado numa poltrona, no fundo da livraria Brasiliense, o pai da boneca Emilia declarou, olhando para mim de modo profundo:

- Rapaz, não se amofine, mas na minha opinião o Aleijadinho era um santeiro vulgar.

O meu sangue ferveu, penso que até fiquei rubro, ele notou, pois logo quis se mostrar mais suave:

- Não me leve a mal, às vezes exagero.

Meio contrafeito, passei a elogiar o Aleijadinho com certa exaltação. Fitando-me, os olhos do Lobato se tornaram mais vivos e ele parecia estar se divertindo. Sentia prazer, acredito, em chocar, escandalizar. Depois de enaltecer o escultor mineiro, a quem chamei de “gênio indiscutível da nossa arte barroca”, Monteiro Lobato se voltou para o Artur Neves e disse:

- Neves, este rapaz tem opiniões firmes e as defende honestamente. Gosto disso.

Agradeci o elogio. Perguntei:

- Que conselho o senhor pode me dar para eu escrever com desembaraço, facilidade?

Coçando o bigode quase branco, ele respondeu:

- Enriqueça, antes de tudo, o seu vocabulário, lendo os bons dicionários da língua portuguesa. Consulte sempre o do Caldas Aulete e o do Antônio de Moraes Silva, cuja primeira edição é de 1789. Eu considero o Moraes um mestre da Lexicografia. Os verbetes do seu dicionário foram escritos com clareza e simplicidade admiráveis. São bem ricos, informativos, repletos de expressões escolhidas com critério apurado. Verbetes que fazem parecer secos, pobres, lacunosos, os verbetes dos outros arroladores de palavras.

Lobato enfatizou:

- Rui Barbosa e Euclides da Cunha foram insaciáveis devoradores de dicionários. O primeiro chegava a corrigi-los e enriquecê-los, enfiando acréscimos nos seus verbetes. Euclides, aliás, desde menino tinha a mania de colocar, nos punhos brancos das suas camisas, as palavras cujo sentido ignorava, a fim de depois as conhecer de forma clara e segura.

Monteiro Lobato me contou que o autor de Os sertões, após descobrir dezenas de erros gráficos na primeira edição da sua obra-prima, ficou a noite inteira na oficina onde ela acabara de ser impressa, raspando com um canivete os tais erros. Euclides fez isto em mais de quinhentos exemplares, surpreendendo os tipógrafos da oficina.

- O escritor verdadeiro deve ser assim inflexível, nunca deve aceitar falhas ou erros nos seus textos – sentenciou Lobato.

Perguntei o que é fundamental para redigir com brilho, originalidade.

Como quem está lecionando, ele prosseguiu:

- Inimigos de qualquer um disposto a escrever bem são os lugares comuns, as assonâncias, os cacófatos, o excesso de adjetivação, o uso exagerado dos “ques”. Lugares-comuns super batidos, mais exaustos que os octogenários asmáticos quando sobem uma ladeira: chovia a cântaros, valente como leão, a sorte lhe foi madrasta, o segredo é a alma do negócio, prometeu mundos e fundos, ficou podre de rico, todo excesso é condenável, é o diabo em figura de gente, o dinheiro não traz felicidade, alegria de pobre dura pouco, não queira ser mais realista que o rei, livre como um passarinho, quem é vivo sempre aparece, tem um parafuso a menos na cabeça...

Eu e o Artur Neves começamos a rir e Lobato acrescentou:

- Exemplo de assonância berrante, de eco ultra-sonoro, de aproximação fonética entre vogais tônicas de palavras diferentes: naquele dia ele comia a valer e ia, cheio de alegria, andar pela pradaria.

Depois Lobato continuou, assumindo ares de pedagogo:

- Cacófato famoso, clássico, vocês conhecem, é o do Camões no começo do soneto à Dinamene, jovem chinesa amada por ele: “Alma minha gentil, que te partiste...” Maminha, substantivo, diminutivo de mama.

Artur Neves pediu:

- Lobato, dê para nós um exemplo de excesso de adjetivação.

O autor de A chave do tamanho se ergueu da poltrona e de forma lenta pronunciou esta frase: a prendada senhorita Adalcinda Robélia Canabrava, de Jacareí, colheu hoje, no jardim risonho da sua preciosa existência, mais uma cândida rosa odorífera.

Registrei logo, num caderninho, a frase melosa e ridícula de cinco adjetivos. Também reproduzi, nesse caderninho, toda a conversa.

Estimulado pela verve de Lobato, eu quis saber:

- Qual foi o escritor que mais o influenciou na formação do seu estilo?

Resposta imediata, certeira como um tiro do pistoleiro Billy the Kid:

- Castelo Branco. Desde os meus primeiros estudos em Taubaté, mergulhei nos livros violentos, tempestuosos, do misantropo de São Miguel de Seide. Li e reli Estrelas funestas, Luta de gigantes, Mistérios de Fafe, O olho de vidro, A doida do Candal, Noites do Lamego, Cavar em ruínas, A bruxa de Monte Córdova. Camilo, ao escrever, tinha a mesma naturalidade com que um homem de boa saúde mija, porém esta minha enorme admiração não me impede de reconhecer: às vezes ele claudicava. Vejam este cacófato do seu romance A corja, publicado em 1880: “sujeitos de presença grave, um por cada vez, entraram pressurosos”... Porcada, segundo o Aulete, é vara de porcos, obra malfeita. Um tanto solene, após dizer que sabia de cor trechos da prosa camiliana, Monteiro Lobato deixou fluir um desses trechos de sua boca, onde o bigode, um v invertido, lhe dava uma certa semelhança com Charlie Chaplin:

“As minhas árvores desconhecem-me nesta linguagem. Estão afeitas a verem-me contemplativo, sereno e enlevado no azul do céu ou no lago verde que lá embaixo se complana como bacia de águas precipitadas das catadupas do Gerez.”

Eu e o Artur Neves aplaudimos e elogiamos a sua memória. Após indicar a página de Camilo com esse trecho (“No Bom Jesus do Monte”), ele comentou:

- Ao contrário do que escreveu Cervantes no Dom Quixote, a memória tem sido para mim uma boa amiga. Palavras simples, as do espanhol. “Oh, memoria, enemiga mortal de mi descanso”.

Dirigindo-se a mim, Lobato me forneceu este conselho:

- Você se acha no início da sua carreira de escritor. Portanto evite a repetição frequente dos “ques” nos seus textos, eles devem ficar o mais possível afastados um do outro. Salientei ao meu amigo, o professor Silveira Bueno, e ele concordou: o uso constante do “que” é o maior responsável pela dureza do estilo, ora como pronome relativo, ora como conjunção integrante. Há poucos dias li num jornal do Rio de Janeiro estas palavras: o deputado que o criticou, que o chamou de leviano, não permitiu que o parlamentar adversário o aparteasse, já que o discurso que ouviu era do tipo que ofende e que só merece desprezo. Observem, sete “ques” numa frase, como pedras, um estorvo, no chão de pequeno caminho.

- E a maneira de evitar este defeito? – indaguei.

O quase sósia de Carlitos respondeu:

- Certa ocasião, em 1922, na sede da Revista do Brasil, da qual fui o diretor, eu e o Silveira Bueno concluímos: se a oração é integrante, podemos eliminar o “que” com uma vírgula, uma elipse, a omissão de duas ou mais palavras, de vocábulos fáceis de serem identificados. Por exemplo, nesta frase: quiseram que o doente se recolhesse ao hospital. Executada a medida, a frase fica assim: quiseram se recolhesse o doente ao hospital. Existem, além desse, vários recursos para suprimir o “que”. Mas se não for possível, devemos alterar a frase, modificar a sua estrutura.

Depois deste conselho, Lobato garantiu:

- Não pensem que sou um gramaticão. Satirizei os gramáticos no meu conto “O colocador de pronomes”, escrito em 1924, onde se agita o meu grotesco personagem Aldrovando Cantagalo, maníaco defensor dos dogmas gramaticais da língua de Camilo. Opinião minha, inabalável: quase sempre os gramáticos escrevem corretamente mal.

* * *

Descrevi para o meu amigo Ênio Silveira, dono da editora Civilização Brasileira, o meu único encontro com Monteiro Lobato. E perguntei se o conheceu:

- Conheci, Fernando. Vou lhe contar algumas coisas interessantes sobre o Lobato. Eu tinha dezoito anos e vivia desempregado, lá em São Paulo. Fiquei, naquele tempo, amigo de uma senhora inteligente, poliglota, chamada Leonor Aguiar. Ela me prometeu arrumar um trabalho e quis apresentar-me, no seu apartamento da avenida Higienópolis, ao Monteiro Lobato, às cinco horas da tarde de um sábado. Fui lá. Encontrei aberta a porta do apartamento. Na porta, colado, vi um cartãozinho com a seguinte frase: “Ênio, feche a porta por dentro”. Obedeci e entrando disse em voz alta: dona Leonor, já cheguei. Ouvi estas palavras: venha aqui, estou no banheiro. Meio constrangido, avancei até o banheiro. E adivinhe o que os meus olhos viram, Fernando.

-Você viu a sua amiga pelada, tomando banho.

- Não, estava vestida, mas havia um homem nu na banheira cheia d’água, sendo esfregado vigorosamente por ela.

- Quem?

- Monteiro Lobato, depressa o reconheci, por causa das suas sobrancelhas espessas, sempre comparadas a uma taturana, às lagartas cabeludas. Fiquei sem jeito, confuso. E Lobato parecia estar se deliciado, a Leonor o esfregava com força, usando escova comprida.

Diante da minha cara espantada, ele indagou se eu nunca tinha visto um homem nu. Respondi que sim, mas não naquela situação. Soltou uma risada e pediu para me sentar num tamborete. Acomodei-me e ele perguntou se eu era parente do Waldomiro Silveira, o criador da nossa literatura regional. Sou seu neto, respondi. Lobato o enalteceu e me informou que lançara em 1920, como editor, o livro Os caboclos, do meu avô, de contos primorosos, onde se destacavam as narrativas intituladas “Pijuca”, “Os curiangos”, “Faiscador de carumbé.”

- Citou estes três contos dentro da banheira?

- É, citou, mas de súbito ficou de pé na banheira já sem água, completamente nu, e enquanto a Leonor o enxugava, passou a explicar que pijuca é um cogumelo que à noite brilha como fogo azul, que curiango é ave noturna de coloração pardo-amarelada, e carumbé uma gamela de pau, usada nas minas de ouro e de diamantes.

- E depois, Ênio?

- Depois, ainda nu em pelo, de pé dentro da banheira, ele me disse: vou lhe dar um cartão para ser entregue ao Octalles Marcondes Ferreira, a fim de você obter uma colocação na Companhia Editora Nacional, fundada por mim e por ele.

- Cumpriu a palavra?

- Sim, pulou da banheira, mesmo pelado, foi até uma escrivaninha, abriu uma gaveta e pegou o cartão. Escreveu para o Octalles e me disse que no ano de 1929, em Nova York, ele, Lobato, chefiava o escritório comercial do Brasil. Na ânsia de ganhar dinheiro de modo rápido, jogou vultosa quantia na Bolsa daquela cidade, dinheiro que não era seu, mas do governo brasileiro. Aí houve o crack da Bolsa e perdeu tudo. Cometera, é inegável, um crime de peculato.

- Que coisa, Ênio! As biografias do Lobato não descrevem esse episódio. O que ele fez para não ser preso e processado?

- Vendeu a propriedade dos seus livros à Companhia Editora Nacional, ao seu ex-sócio Octalles Marcondes Ferreira. Com a venda, pôde repor o dinheiro.

- Você passou a trabalhar nessa editora?

- Passei. Um dia o Lobato apareceu lá na sala do Octalles, eu estava presente. O Octalles me disse, diante do Lobato, que este queria deixar de ser editado pela Companhia Editora Nacional, pois pretendia fundar, com o Caio Prado Júnior, a Editora Brasiliense. Não houve ali nenhuma oposição do Octalles, mas este tirou um documento de uma gaveta e o mostrou ao ex-sócio. Após ler o documento, lágrimas jorraram dos olhos de Lobato. Lágrimas torrenciosas. Emocionadíssimo, ele caiu de joelhos em frente do Octalles e abraçando as suas pernas lhe pediu perdão, porque se esquecera de que havia vendido a propriedade dos seus livros à Companhia Editora Nacional. Magnânimo, Octalles abriu mão, devolveu ao Lobato o direito de dispor, como bem entendesse, dos seus próprios livros, inclusive dos livros de literatura infantil.

Em seguida o Ênio Silveira perguntou se eu sabia como foi o enterro do Lobato em 1948, no cemitério da Consolação. Respondi:

- O Oswald de Andrade me descreveu de modo cômico esse enterro. Eu não acreditei no que ele me contou, achei que era pilhéria, gozação. Diga-me como foi.

- Fernando, parecia a cena de um filme do Fellini. Você conhece o poeta Rossine Camargo Guarnieri, meu companheiro no Partido Comunista?

- Somos velhos amigos, ele gosta muito de mim. Outro dia declamou, na minha casa, o seu belo poema “Canto da esperança em louvor de Estalingrado”, composto no ano de 1946.

- Pois é, lá no cemitério, quando o caixão com o corpo do Lobato ia descer à cova, o Rossine pediu a palavra e trovejou: camarada Lobato, estamos aqui, os teus irmãos do Partido Comunista do Brasil, seguidores do nosso grande líder Ossip Vissarionovitch Stalin, para afirmar que tu foste um companheiro leal, incapaz de desonrar a nossa bandeira, os teus santos ideais, na dura peleja por uma sociedade mais justa, mais livre, mais humana, mais igualitária, mais democrática. Então, nesse momento, o professor Phebus Gikovate berrou: Monteiro Lobato não era stalinista, era trotskista! Rossine, pegando fogo, reagiu: Lobato era stalinista! 

E o Phebus: mentira, era trotskista, seguidor de Lev Davidovitch Bronstein, mais conhecido pelo nome Trotski! Um gritava: stalinista! E o outro: trotskista! Ambos se engalfinharam, trocando xingamentos, socos, pontapés, bofetões. E caíram na cova aberta. A custo os tiraram do buraco. Um sócio do Clube Piratininga, após a guerra dos dois, opinou: Lobato não era stalinista nem trotskista, era monarquista, um ardoroso admirador de D. Pedro II. Dona Purezinha, a viúva do falecido, misturava as suas lágrimas com risos nervosos.

Concluindo, o Ênio Silveira pronunciou estas palavras:

- E eu, Fernando, embora tentasse me conter, não parei de rir. Creio que até a alma do Lobato, vendo aquilo, explodia em gargalhadas...






segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Narizinho e o menino que veio do futuro, um conto de Décio Diniz.

Narizinho e o menino que veio do futuro


Todo fim de tarde, o pessoal no sítio de Dona Benta costumava se reunir para admirar o

pôr do sol. Quando, por algum motivo, não podiam estar todos juntos, cada um procurava um

cantinho para isso.

Naquele dia, Narizinho estava na janela de seu quarto, junto com Emília. O sol havia

acabado de desaparecer atrás da montanha quando viram uma pequena luz brilhante riscar o céu.

- Olha, Narizinho! Caiu ali no pasto, tenho certeza!

A boneca pegou a mão da menina e saiu correndo para o quintal.

- O que será, Emília? Uma estrela cadente? Ou o anjinho que voltou?

- Acho que é um disco voador! – falou a boneca, baixinho.

As duas se aproximaram da claridade que logo se apagou, revelando uma pequena armação

prateada, em forma de charuto, que de repente se desintegrou e mostrou um menino aparentando

mais ou menos a idade de Pedrinho.

Emília arregalou os olhos de retrós e disse:

- Meu caríssimo viajante do céu, você não se parece com um extraterrestre!

O menino, que vestia um macacão que parecia todo sujo de fuligem, estendeu a mão para

cumprimentar a boneca.

- Eu não sou de outro planeta. Sou daqui mesmo da Terra, mas vim do futuro. Muito

prazer, Noah.

Narizinho pulou de alegria.

- Do futuro! Que maravilha. Prazer, Lúcia, mas pode me chamar de Narizinho. De que ano

você veio?

- De 2070. Cento e cinquenta anos no futuro!

Emília piscou para Narizinho.

- Acho que você errou na conta. Não são 150 anos, estamos em 2020.

Noah franziu as sobrancelhas e olhou para uma pulseira que trazia no braço.

- Eu queria ir para 1920! Mas eram vocês mesmo quem eu procurava! Como você pode

ainda ser uma menina, Narizinho? Depois de cem anos!

Emília sorriu ao ver que ainda eram bem conhecidas no futuro.

- Foi mesmo em 1920 que Juca escreveu a primeira história sobre a gente. É que aqui no

sítio de Dona Benta é como na Terra do Nunca, ninguém envelhece!

O garoto olhou para a boneca com cara de quem não estava entendendo nada.

- Juca? Não foi Monteiro Lobato?

- É ele mesmo, Noah. Ele é um grande amigo da vovó.

- Exatamente, Noé! E você veio do futuro só pra conhecer a gente?

- Emília! É Noah, não Noé – corrigiu Narizinho.

Noah riu do raciocínio da bonequinha.

- Na verdade, Emília, eu vim pedir ajuda. Eu li sua história, Narizinho. Seu encontro com

o príncipe Escamado, e tudo o mais. Algo me fez pensar que vocês aqui do Sítio talvez possam

nos ajudar!

Narizinho e Emília se entreolharam e a menina perguntou:

- Ajudar? O que tem de errado com o futuro?

Noah então contou que em sua época a Terra se encontrava totalmente devastada, por

causa do desmatamento da Amazônia, das consequências do aquecimento global e outras coisas

mais. Uma tristeza!

Narizinho sentiu os olhos cheios de lágrima enquanto Emília, alisando um fio de cabelo,

fazia aquela expressão de quem estava procurando uma solução.

- Vamos contar para Dona Benta! Ela vai nos ajudar a ter alguma ideia. Venha, Noah.

Vamos conhecer o pessoal.

Quando Narizinho e Emília entraram com Noah, todos ficaram surpresos com o visitante

do futuro. Dona Benta sentiu compaixão pela tristeza que conseguia enxergar nos olhos do garoto.

Tia Nastácia, desconfiada, achava que o menino estava pregando uma peça em todos. Pedrinho

ficou empolgado com a ideia de viajar no tempo, e já fazia na mente planos de ir para o futuro com

Noah. E, como não poderia deixar de ser, o Visconde pensava em como explicar cientificamente

o ocorrido.

As horas passaram voando enquanto Noah contava em detalhes a condição do planeta no

ano em que vivia. Todos sentiram um aperto no coração. Emília logo pensou em voltar à Casa das

Chaves e desligar a chave do tempo para que ele congelasse e impedir aquele futuro sombrio.

Dona Benta convenceu-a de que não seria justo com as futuras gerações, até mesmo Noah deixaria

de existir se ela fizesse isso. Por fim, todos concordaram que o melhor era irem dormir e no dia

seguinte decidiriam a melhor estratégia.

Noah dormiu no quarto de Pedrinho e achou a cama tão maravilhosa que em minutos já

estava em um sono profundo. As horas se passaram e logo os primeiros raios de sol já apareciam

pela janela. Pedrinho acordou, deu uma longa espreguiçada e foi chamar Noah. Quando chegou

perto da cama percebeu que o garoto já não estava mais lá. Foi até a cozinha, onde Tia Nastácia

preparava o café da manhã. Ela não havia visto o menino. Procurou pela casa toda, pelo quintal, e

nada de Noah! Narizinho e Emília se juntaram a ele, mas sem sucesso.

- Vovó, o Noah sumiu! – contou Narizinho, quando Dona Benta apareceu na varanda.

Misteriosamente, o menino não estava em lugar nenhum.

- Vai vê ele voltou pro futuro, se é que veio mesmo de lá – disse Tia Nastácia, ainda

desconfiada.

- Será que foi tudo um sonho? – perguntou a boneca.

- Difícil, Emília – respondeu o Visconde. Se fosse assim todos teriam que ter tido o mesmo

sonho.

Mais uma vez Dona Benta ponderou:

- Talvez ele já tenha cumprido sua missão aqui, crianças. Por isso foi embora.

- Sem se despedir? Um ingrato esse Noé! – reclamou Emília.

- Emília, deixa a vovó falar – protestou Narizinho. Que missão, vovó?

- Conscientizar vocês do perigoso futuro que os aguarda e motivá-los a agir.

Todos ficaram olhando para Dona Benta, pensativos, até que Pedrinho disse, com voz

firme:

- Vovó, eu prometo que a gente vai fazer tudo o que puder para proteger o planeta! E já

tenho uma ideia pra começar. Vamos escrever cartas para as crianças do mundo todo, pedindo que

conversem com seus pais sobre o assunto. Elas vão colaborar, tenho certeza!

- Mas como, Pedrinho? São bilhões de crianças! – lembrou o Visconde.

- E pra que serve meu faz-de-conta, seu Sabugosa? – perguntou a boneca, já animadíssima

com a ideia de Pedrinho.

Assim, naquele mesmo dia, crianças do mundo inteiro receberam uma cartinha, daquelas

que eram tão comuns antigamente, dentro de um envelope, assinada pelos moradores do Sítio do

Picapau Amarelo.

Como você acha que elas reagiram? Será que aceitaram o desafio de Pedrinho de conversar

com seus pais sobre a importância de cuidar do planeta? O que você teria feito?

Décio Diniz

Professor e membro do Observatório Lobato.

segunda-feira, 18 de março de 2024

Seria Lobato realmente racista? - Prof. Dra. Vanete Santana Dezmann

 



Por favor, analise as informações abaixo e responda por conta própria.

 

1. Lobato foi o primeiro escritor brasileiro a denunciar a situação degradante a que escravizados foram submetidos e a que ex-escravizados continuavam sendo mesmo três décadas após a assinatura da Lei Áurea. Ver os contos “Os negros” e “Negrinha”, respectivamente.

2. Lobato foi o primeiro escritor brasileiros a colocar uma mulher negra, analfabeta e pertencente à terceira idade como integrante do núcleo de protagonistas de uma série de estórias (ver a atuação de Tia Nastácia nas estórias d’O Sítio do Pica-pau Amarelo). Um dos melhores exemplos do alto nível em que colocou Tia Nastácia se encontra no livro A reforma da natureza. Devido a seu bom-senso, Tia Nastácia foi convidada a ir à Europa aconselhar os estadistas mais poderosos do período da II Guerra Mundial (incluindo-se Mussolini e Hitler) sobre como alcançar e preservar a paz.

3. Lobato foi a primeira voz – e talvez única no início do século XX – a anunciar o que hoje é obvio, mas que não o era há um século: “Preto também é gente.” (ver a última frase do livro Caçadas de Pedrinho).   

4. Lobato foi o único escritor brasileiro a escrever um romance inteiro para mostrar os malefícios que a aplicação da eugenia negativa (a eugenia darwinista) poderia gerar. Ver o romance O choque das raças ou o presidente negro e ver também a diferença entre eugenia darwinista e eugenia lamarquiana (esta, considerada positiva; nela se englobam, por exemplo, as ações de imunização artificial da população por meio de vacinação). Veja também nota abaixo contendo as referências que Lobato faz às pessoas da etnia negra em no referido romance.

5. Lobato foi o único a reconhecer o valor do trabalho do museólogo Manuel Querino, negro. Lobato chegou a publicar gratuitamente, por livre e espontânea vontade, uma nota sobre seu livro (de Manuel Querino), na qual ressalta que, por ser negro, Querino precisou despender muito esforço – mais do que teria que ter despendido se fosse branco – para alcançar o elevado patamar a que chegou. Também não mediu esforços para publicar Lima Barreto e reconhecia em Machado de Assis o melhor escritor brasileiro.

“Manuel Querino é membro do Instituto Histórico da Bahia e é preto, como no-lo revela o seu retrato. Isto só lhe acrescenta valor. Ser preto é ser humilde, partir do nada, encontrar na vida todos os óbices do preconceito social e despender para obtenção das coisas mínimas um esforço duplo do requerido pelos que nascem limpos de pigmentos. Honra lhe seja pela árdua tarefa levada a cabo com tanta modéstia e discernimento. Não é nem faz obra de crítico, amontoa simplesmente material para que os Taines maiores e menores da terra impem de sábios à custa de esforço alheio. Subintitula o seu livro de Indicações biográficas – e reúne tudo quanto em anos de labor conseguiu colher relativo aos escultores, pintores e músicos baianos. Na escultura biografa 27 artistas, alguns escultores, a maioria simples santeiros.” Monteiro Lobato, sobre Manuel Querino, em “Revista do Brasil”, n. 16, abr. 1917.

6. Enquanto esteve preso, por discordar do Presidente Getúlio Vargas sobre a questão da exploração do petróleo no Brasil, Lobato alfabetizou seus companheiros de cela, a maioria pobres e negros. Lobato também forneceu carta de recomendação a cada um que foi libertado durante o período em que ele esteve preso e indicou pessoas de fora da prisão a quem poderiam procurar, em seu nome, para solicitar emprego. O próprio Lobato deixou seu endereço com os companheiros de cela. Depois que saiu da prisão, foi procurado por um ex-colega detento, um negro que esteve preso por matar uma pessoa. Lobato o contratou como jardineiro. Sua esposa, Purezinha, tinha muito medo do homem devido a seu histórico; mesmo assim, Lobato o manteve em sua casa.

Eu poderia citar mais elementos para sua análise, mas sei que em sua cabeça martelam algumas frases descontextualizadas de Lobato, frequentemente citadas por quem pede que seus livros sejam novamente queimados em praça pública – exatamente o que a Igreja Católica fez quando ele ainda estava vivo... Após a missa das manhãs de domingo, atrás da das igrejas católicas, uma grande fogueira era acesa com os livros de Lobato levados pelas crianças para os professores e professoras ao longo da semana a troco de “ponto positivo” na nota. Então, vamos a elas.

 

1. “Tia Nastácia trepou no mastro de São Pedro como uma macaca de carvão” – sempre citada para dar a entender que o termo macaca de carvão é um xingamento usado por Lobato para detratar Tia Nastácia por ela ser negra.

Primeira lição – de português: nas orações acima (Tia Nastácia trepou no mastro de São Pedro como uma macaca de carvão” trepa em mastros, árvores etc) não há uma comparação entre substantivos (Tia Nastácia e macaca de carvão), mas sim entre verbos: ela trepou/subiu no mastro de São Pedro como uma macaca trepa/sobe em tudo que há para subir.

Segunda lição – de biologia: macaco de carvão ou macaco carvoeiro é o nome popular do macaco buriqui, ou muriqui (em língua tupi-guarani). O nome indígena deste tipo de macaco significa “aquele que balança de um lado para o outro”. A fêmea é descrita como tendo o ventre avantajado. Se imaginarmos o movimento de alguém com abdômen avantajado subindo em um mastro, conseguiremos supor que o balanço lateral é mais pronunciado do que o movimento feito quando um corpo esguio sobe o mastro.

Até hoje, quando alguém não para quieto, pula e sobe nas coisas, é chamado de macaco. Qual criança nunca foi chamada à atenção por um “desce daí, tá parecendo macaco” ou “desce daí, seu macaquinho”?

Então, Lobato também comparava o ato de saltar ou subir em algo com destreza ao ato praticado por macacos. Isso aparece em toda a obra de Lobato como um elogio à destreza da pessoa – seja ela branca ou negra. No caso específico de Tia Nastácia, ele não comparou seu movimento ao de um macaco genérico, mas ao do muriqui, que balança bastante de um lado para o outro e, sendo fêmea, balança mais ainda. Para encerrar, é preciso contar que o muriqui tem a pelagem alaranjada. Basta dar um google para confirmar as informações acima. Por fim, é preciso lembrar que, antes da década de 70, a maior parte da população brasileira era rural e o muriqui era conhecido por praticamente todo brasileiro dos estados que se estendem do nordeste ao sul, onde havia uma extensa faixa da Mata Atlântica. Por tanto, ao estabelecer a comparação, todos os leitores sabiam que lá estava escrito “Tia Nastácia trepou no mastro de São Pedro balançando pronunciadamente de um lado para o outro.”. Por que Lobato usou uma metáfora – e não simplesmente escreveu a frase anterior? Por que ele escrevia literatura – e não texto técnico.

2. “Cheguei verde [nos EUA]. Deveria ter vindo quando enforcavam os negros” – frase de uma carta de Lobato a Godofredo Rangel apresentada como expressão do desejo de assistir ao enforcamento de negros nos EUA. Trata-se, porém, de uma locução adverbial de tempo: “Cheguei aos EUA inexperiente do que se passava aqui. Eu deveria ter vindo no tempo em que enforcavam os negros, pois, naquela época (quando enforcavam os negros aqui nos EUA), meu livro O choque das raças ou o presidente negro seria útil para defender os negros aqui. Hoje, em pleno Harlen Renaissance (dê um google aqui também ou leia meu livro: SANTANA-DEZMANN, Vanete. Entre metafísica, distopia e mecenato. São Paulo: Os caipiras, 2021.), este meu romance não faz sentido nos EUA.”

3. “Lobato e seu livro ‘O presidente negrro’ eram tão racistas que nem os norte-americanos/estadunidenses quiseram publicar esse livro”, dizem as más línguas, sedentas por fogo e personagens saídas da distopia “Fahrenheit 451”. Não é nada disso. Acontece que em 1926 a mecenas das artes em Nova Iorque, poderosa nos EUA e famosa no mundo todo, era ninguém menos do que A’Lelia Walker, herdeira da fábrica de alisantes de cabelo da Madam C. J. Walker (sim, aquela da péssima série da netflix – recomendo o livro, escrito pela bisneta, A’Lelia Bundles). Nenhum editor dos EUA publicaria um livro em que o alisamento de cabelo foi responsável pela esterilização dos homens negros – todos os editores da época “comiam – ou, ao menos, queriam “comer” –  nas mãos” de A’Lelia. Tudo isso se encontra documentado em meu livro acima referido.

4. Quanto à outra forte acusação que induz os personagens de “Fahrenheit 451” a quererem “queimar” a memória de Lobato e sua obra – a acusação de que Lobato desejava que houvesse no Brasil um movimento como a KKK – infelizmente ainda não posso emitir análise, pois ainda não tive acesso à carta em que tal desejo teria sido expresso. De qualquer modo, informar-se sobre a origem da KKK, sobre um tal Blue Vein Circle, sobre as divisões entre diferentes tipos de “não brancos” vigentes no início do século XX e sobre as fakenews publicadas pela imprensa carioca à época sobre Lobato já fornecerá importante material para a análise da tal carta.    

5. Por fim, quanto às acusações de que Lobato era racista e sua obra também, por usarem “expressões racistas”, sugiro incendiar junto com a memória de Lobato a memória de W. E. B. Du Bois (vale outro google), ilustre negro e principal ativista pró direitos civis dos negros dos EUA no início do século XX, afinal ele batizou sua associação de National Association for the Advancement of Colored People (NAACP). Chamar os afrodescendentes de “pessoa de cor” é racista, não é? Vamos queimar esse racista do Du Bois também!

 

Nota 1: sobre a nota de Monteiro Lobato acerca de Manuel Querino

 




 

Nota sobre: Manuel Querino (1851-1923)

Escrita por: Monteiro Lobato

Publicada em: “Revista do Brasil”, n. 16, abr. 1917.

Disponível em: LOBATO, Monteiro. Críticas e outras notas, 2009, p. 153.

Dra. Vanete Santana-Dezmann

Manuel Querino

Retrato publicado no livro Artistas bahianos: indicações biographicas. 2. ed. melhorada e cuidadosamente revista. Bahia: Officinas da Empreza “A Bahia”, 1911. 

Retrato acessível em http://www.dicionario.belasartes.ufba.br/.../manuel.../

  

Manuel Querino é membro do Instituto Histórico da Bahia e é preto, como no-lo revela o seu retrato. Isto só lhe acrescenta valor. Ser preto é ser humilde, partir do nada, encontrar na vida todos os óbices do preconceito social e despender para obtenção das coisas mínimas um esforço duplo do requerido pelos que nascem limpos de pigmentos. Honra lhe seja pela árdua tarefa levada a cabo com tanta modéstia e discernimento. Não é nem faz obra de crítico, amontoa simplesmente material para que os Taines maiores e menores da terra impem de sábios à custa de esforço alheio. Subintitula o seu livro de Indicações biográficas – e reúne tudo quanto em anos de labor conseguiu colher relativo aos escultores, pintores e músicos baianos. Na escultura biografa 27 artistas, alguns escultores, a maioria simples santeiros. Monteiro Lobato

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Leia também:

1) O retrato falado do “racismo na obra infantil de Lobato” – Vanete Santana-Dezmann.

https://vanetesantanadezmann.blogspot.com/2021/01/o-retrato-falado-do-racismo-na-obra.html

2) Beloved, Amistad e Negrinha… libelos contra o racismo – Vanete Santana-Dezmann

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/dilemas-contemporaneos/beloved-amistad-e-negrinha-libelos-contra-o-racismo/

 

Nota 2: sobre a macaca de carvão



muriqui-do-sul (nome científicoBrachyteles arachnoides), também chamado simplesmente de mono-carvoeiro ou muriqui, é uma espécie de primata da família Atelidae e do gênero Brachyteles endêmico da Mata Atlântica brasileira. É uma das duas espécies existentes de muriqui, sendo a outra o muriqui-do-norte (nome científicoBrachyteles hypoxanthus). Ocorre principalmente nos estados do ParanáSão PauloRio de JaneiroEspirito Santo e Minas Gerais. Com quase 1,60 m de comprimento e pesando até 15 kg, o muriqui do sul é o maior primata não-humano das Américas. É uma espécie considerada como "criticamente em perigo" pela IUCN[3] e "em perigo" pelo Ministério do Meio Ambiente. Isso se deve principalmente à alta fragmentação da Mata Atlântica e à caça ilegal, que pode levar pequenas populações reduzidas à extinção rapidamente.

O muriqui-do-sul tem longos braços e uma cauda preênsil, que permite a braquiação. Ao contrário do muriqui-do-norte, sua face é negra, sem manchas esbranquiçadas, e não possui o polegar vestigial. Os testículos são volumosos, consequência de um sistema de acasalamento promíscuo.

Etimologia

Muriqui vem do tupi muri'ki e significa "gente que bamboleia, que vai e vem". A espécie é conhecida como "povo manso da floresta", graças a seus hábitos pacíficos e de permanência em grupo.[4][5]

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Muriqui-do-sul

 

 

Nota 3: sobre o romance O choque das raças ou o presidente negro

 



O livro O choque das raças ou o presidente negro – um romance do ano 2228, de Monteiro Lobato, recentemente passou a ser apontado como um romance racista. Para que cada um possa avaliar por si mesmo as referências a pessoas da etnia negra e a Jim Roy que se encontram no livro, reproduzo-as abaixo.

A quem quiser conhecer minha análise, indico Entre metafísica, distopia e mecenato, publicado em 2021. O livro pode ser adquirido diretamente comigo pelo e-mail vanetedezmann@gmail.com.

 

Quem sabe os excertos estimulem a leitura do livro do romance de Lobato por completo. Sua primeira edição se encontra reproduzida em Entre metafísica, distopia e mecenato.

 

Parte de minha análise também pode ser acessada em algumas palestras disponíveis na internet: “Por que O presidente negro não foi publicado nos Estados Unidos”; “Quem fala por Lobato em O presidente negro?” e “Entre metafísica, distopia emecenato”.

 

Para entender algo, nada melhor do que conhecer. Conhecimento é poder! O conhecimento liberta!

 

Excertos 1 a 3: descrição de Jim Roy

Era Jim Roy, na realidade, um homem de imenso valor. Nascera fadado a altos destinos, com a marca dos condutores de povos impressa em todas as facetas da sua individualidade.

Como organizador e meneur, talvez superasse os mais famosos organizadores surgidos entre os brancos. A história da humanidade poucos exemplos apresentava de uma eficiência igual à sua. Consagrara-se desde muito jovem à execução dum plano de gênio, traçado nas linhas mestras com a mais perfeita compreensão do material humano sobre que pretendia agir.

Lobato, 2021, p. 259.

 

Ia realizar um ideal. O problema negro da América teria com ele no governo a única solução justa.

Lobato, 2021, p. 316.

                                  

       E Jim sonhava o maior sonho que ainda se sonhou na América.

Lobato, 2021, p. 316.

 

Excerto 4

Às 9 e 45, aproximou-se da janela e espalhou o olhar pelo casario de Washington. O panorama que viu, entretanto, foi bem diverso. Descortinou todo o lúgubre passado da raça infeliz. Viu, muito longe, esfumado pela bruma dos séculos, o humilde kraal africano visado pelo feroz negreiro branco, que em frágeis brigues vinha por cima das ondas, qual espuma venenosa do oceano. Viu o assalto, a chacina dos moradores nus, o sangue a correr, o incêndio a engolir as palhoças. Depois, o saque, o apresamento dos homens e mulheres válidos, a algema que lhes garroteava os pulsos, a canga que os metia dois a dois em comboios sinistros, tocados a relho para a costa. Viu, como goelas escuras, abrirem-se os porões dos brigues para tragar a dolorosa carne de eito. E recordou o interminável suplício da travessia... Carga humana, coisa, fardos de couro negro com carne vermelha por dentro. A fome, a sede, a doença, a escuridão. Por sobre as cabeças da carga humana, um tabuado. Por cima do tabuado, rumores de vozes. Eram os brancos. Branco queria dizer uma coisa só: crueldade fria...

Viu depois o desembarque. Terra, árvores, sol – não mais como em África. Nada deles, agora – nem a terra, nem as árvores, nem o sol. Caminha, caminha! Se um tropeça, canta-lhe o látego no lombo. Se cai desfalecido, trucidam-no. A caravana marcha, trôpega, e penetra nos algodoais...

Viu Jim viçarem luxuriosos os algodoais da Virgínia depois que o negro chegou. Além das chuvas, havia a regá-los, agora, o suor africano – suor e sangue.

Viu dois séculos de chicote a lacerar carnes e ouviu dois séculos de lágrimas, gemidos e lamentosos uivos de dor. E viu a América ir saindo dessa dor, como a pérola, filha do sofrimento do molusco, nasce na concha...

Viu, depois, a Aurora da noite de duzentos anos: Lincoln. O branco bom disse: Basta! Ergueu exércitos e das unhas de Jefferson Davis arrancou a pobre carne-coisa.

As algemas caíram dos pulsos, mas o estigma ficou. Às algemas de ferro se substituíram as algemas morais do pária. O sócio branco negava ao sócio negro a participação de lucros morais na obra comum. Negava a igualdade e negava a fraternidade, embora a Lei, que paira serena acima do sangue, consagrasse a equiparação dos dois sócios.

E viu Jim que Justiça não passava de uma pura aspiração – e que só há justiça na terra quando a força a impõe.

Jim: “Hei de fazer-me força e impor a justiça”, murmurou o grande negro.

Em sua testa larga, profunda ruga se abriu. Seus olhos se cerraram e Jim permaneceu imóvel, como siderado por uma ideia de gigante.

Lobato, 2021, p. 279-280.

 

Excerto 5

Lentamente despertava a massa negra do longo letargo de submissão, e tremia, de narinas ao vento, como o tigre solto na jungle. Toda a barbárie atávica, todos os apetites em recalque, rancores impotentes, injustiças padecidas, todas as vergastadas que laceraram a sua pobre carne até o advento de Lincoln e, depois de Lincoln, todas as humilhações da desigualdade de tratamento – essa legião de fantasmas irrompeu da alma negra como serpes de sob a laje que mão imprudente levanta. E a raça maior, que através dos séculos não se atrevera a sonho maior que o da mesquinha liberdade física, passou a sonhar o grande sonho branco da dominação... (...) Amava Jim a América. Nos alicerces do colossal edifício, o cimento ligador dos blocos fora amassado com o suor dos seus ancestrais. A América surgira do esforço braçal de um dirigido pelo esforço mental de outro, e, pois, tanto lhe falava ao sangue como ao do mais orgulhoso neto dos pioneiros louros.

Lobato, 2021, p. 288-289.

 

Excerto 6

Jim sentia no ar as ondas de fluidos explosivos, um perfeito ambiente de pólvora. O solo latejava pulsações vulcânicas.

Tremeu o negro diante da sua obra – e, sem vacilar, foi ao encontro do Kerlog. O momento impunha a conjugação da sua força com a do líder branco.

Defrontaram-se os dois chefes como duas forças da natureza, contrárias nos seus destinos, inimigas pela voz do sangue, mas irmanadas no momento por um nobre objetivo comum.

Lobato, 2021, p. 289.

 

Excerto 7

No primeiro ímpeto, Kerlog apostrofou o chefe negro.

Kerlog: “Vê tua obra, Jim! A América transformada num vulcão e ameaçada de morte!”

O negro cravou no líder branco os olhos frios, por um instante animados de estranho fulgor.

Jim: “Não minha, presidente Kerlog! Não é minha esta obra. É sua, é dos seus, é de Washington, é de Lincoln. Vós, brancos mentistes na lei básica. E ou confessais que mentistes ou reconheceis que a situação é perfeitamente normal. Que aconteceu, presidente Kerlog? Houve um pleito e as urnas libérrimas conferiram a vitória a um cidadão elegível. Acha o presidente Kerlog que o pacto Constitucional sofreu lesão?

Naquele peito a peito, Jim Roy dominava o adversário.

Lobato, 2021, p. 289.

 

Excerto 8

Jim: “Mas não se trata disso”, continuou ele. “O momento não é para recriminações – e nesta matéria o presidente Kerlog bem sabe que jamais um branco venceria um negro... O fato está consumado e, como chefes supremos das duas raças, a nós só incumbe atender à salvação comum. Se não contivermos de rédeas presas – eu, o monstro da ebriedade negra, o presidente Kerlog, o monstro do orgulho branco, a chacina vai ser espantosa...”

Kerlog: “Ninguém sabe disso melhor que eu”, retrucou o chefe da nação. “Nos estados do Sul já lavra o incêndio...”

Lobato, 2021, p. 289.

 

Excerto 9

O negro deu um salto.

Jim: “Jim o apagará! Jim manterá em cadeia de aço a pantera africana. Ele a domina com os olhos, como o soba a dominava no kraal donde a rapina dos brancos a tirou. Jim é rei!”

Era tal a firmeza com que emitia o grande negro aquelas palavras que o tom de superioridade do líder branco se demudou em admiração.

Viu Kerlog que tinha diante de si não um feliz aventureiro político, mas uma dessas incoercíveis expressões raciais a que chamamos condutores de povos. Pela primeira vez, enfrentava um homem que era algo mais que um homem. E, do fundo do coração, lamentou Kerlog que a incompatibilidade racial o separasse de tamanho vulto.

Lobato, 2021, p. 289.

 

Excerto 10

Jim prosseguiu:

Jim: “Mas só o farei se o Presidente Kerlog, do seu lado, açaimar o orgulho branco. Eu domino com o olhar e a palavra terrível. O Presidente Kerlog domina com a força do estado. Em nossas mãos está, pois, a paz da América.”

O líder branco baixou a cabeça. Meditava.

Kerlog: “Pois salvemos a América, Jim!”, disse erguendo-se. “Açaima tu a pantera negra que meterei luvas de ferro nas unhas da águia loura.”

Um leal aperto de mão selou aquele pacto de gigantes.

Lobato, 2021, p. 290.

 

Excerto 11

Kerlog: “Mas a pantera que conte com o revide da águia!”, concluiu o líder branco depois que as mãos se desapertaram. “A águia é cruel...”

Jim Roy retesou-se de todos os músculos, como a fera que se põe em guarda.

Jim: “Ameaça-nos como sempre? Ameaça-nos até no momento em que a América ou rasga a sua Carta e afoga-se num mar de sangue ou submete-se à minha direção?”

Lobato, 2021, p. 290.

 

Excerto 12

Kerlog olhou-lhe firme nos olhos e murmurou com nitidez de lâmina:

Kerlog: “Não ameaço. Previno lealmente. Vejo em ti uma força demasiado grande para que eu a enfrente com palavras. Estamos, face a face, não dois homens, sim duas almas raciais arrostadas num duelo decisivo. Não fala neste momento o presidente Kerlog. Fala o branco de crueldade fria, o mesmo que vos arrancou do kraal, o mesmo que vos torturou nos brigues, o mesmo que vos espezinhou nos algodoais. Como há razões de estado, Jim, há razões de raça. Razões sobre-humanas, frias como o gelo, cruéis como o tigre, duras como o diamante, implacáveis como o fogo. O Sangue não raciocina, como os filósofos. O Sangue sidera, qual o raio. Como homem, admiro-te, Jim. Vejo em ti o irmão e sinto o gênio. Mas, como branco, só vejo em ti o inimigo a esmagar...”

Lobato, 2021, p. 290.

 

Excerto 13

O largo peito de Jim Roy arfava. A fera ancestral contida nele transpareceu no fremir das ventas grossas.

Jim: “E não trepidará o branco em esmagar a América se for condição para esmagar o negro?”, rugiu.

Kerlog retrucou calmamente, como se pela sua boca falasse o próprio deus do Orgulho:

Kerlog: “Acima da América está o Sangue.”

Lobato, 2021, p. 290.

 

Excerto 14

Jim abaixou a cabeça. Viu aberto à sua frente o eterno abismo. O dolicocéfalo louro tinha a dureza do diamante. Armado de mais cérebro, dos vales dos Ganges partira para a atrevida aventura conquistadora e vencera sempre, e não cedera nunca. Era o nobre, o duro, o eterno senhor cujo raio fulmina. Era o criador. Do rude instinto de matar do troglodita, extraíra a sua grande arte, a Guerra. Forjara a espada, dominara o gás que explode, violara o profundo das águas e a amplidão dos ares. E, com esse feixe de armas incoercíveis, rodeara, como de baionetas, o diamante do seu Orgulho.

Lobato, 2021, p. 290.

 

Excerto 15

Tudo isso, num clarão, viu Jim Roy naquele homem que, sereno, o arrostava. E o que ainda havia de escravo no sangue do grande negro vacilou. Jim sentiu-se retina ferida pelo sol. Mas sem demora reagiu. Ergueu-se e, mais firme que nunca, disse, com durezas de rocha na voz:

Jim: “Seja! E porque assim é, dei o supremo golpe. A América é tão sua como minha. Tenho-a nas mãos. Vou dividi-la.”

 Kerlog: “A justiça está contigo, Jim. Manda a justiça dividir a América. Mas o Sangue está acima da justiça. O Sangue tem a sua justiça. E, para a justiça do Sangue Ariano, é um crime dividir a América.

Jim baixou a cabeça novamente e emudeceu. Pela segunda vez, sentia-se retina ofuscada pelo sol.

Lobato, 2021, p. 291.

 

Excerto 16

O presidente Kerlog aproximou-se dele e, com as mãos nos seus ombros largos, disse:

— “Vejo-te grande como Lincoln, Jim, e é com lágrimas nos olhos que contemplo tua figura imensa, mas inútil... Adeus. Atendamos ao instante, açaimemos as nossas raças, mas não fique entre nós sombra de mentira. O teu ideal é nobilíssimo, mas à solução de justiça com que sonhas só poderemos responder com a eterna resposta do nosso orgulho: Guerra!”

E os dois seres humanos, subsistentes no imo dos dois líderes raciais, abraçaram-se com lágrimas...

Miss Jane fez uma pausa, atenta à minha comoção. Aquele duelo de gigantes agitara fundo o meu ser. Tive a impressão de que jamais a história oferecera lance mais augusto – nem mais cruel. Vi claros inúmeros pontos até ali obscuros na marcha da caravana que do fundo das idades vem vindo a entredegolar-se com sanhudos ódios. Vi um sonho de Ariel esfumado nas alturas, a Justiça Humana, e vi na terra, onipotente, a Justiça do Sangue, um raio cego...

Ayrton: E depois?, perguntei. Reentrou na paz a América?

Jane: Sim, respondeu Miss Jane. Os dois líderes entraram a agir de pronto. A ação de um foi tão rápida e segura como a do outro. A pantera negra recolheu as garras e a águia loura enluvou as unhas.

Mas o beluário negro sentia-se ferido. As palavras que a raça branca pusera na boca de Kerlog cravaram-se-lhe no coração como as zagaias dos seus avós no peito dos fulvos leões africanos – mortalmente...

Lobato, 2021, p. 290.

 

Monteiro Lobato nu e cru, na banheira - por Fernando Jorge

  Fernando Jorge (Petrópolis, 1928) é uma figura multifacetada da cultura brasileira, cuja trajetória como jornalista, escritor, historiador...